29 de setembro de 2005

Summa

The music of AKA MOON is an attitude. We can say sometimes 'it's jazz', because improvisation takes an important place. It means we have the opportunity to re-act instantly between us in face with the energy of the present. Sometimes, people says is like 'rock music', because of the collective impact of the band. Sometimes is like 'drum and bass' because we just love to be in this kind of mood. Sometimes people says other things, but what is important is the attitude to be open to any kind of sources of inspiration.

(Fabrizio Cassol, compositor responsável pelo trio belga Aka Moon, entrevistado por Federico Marongiu. Via Carbon-7.)

Ouça Live at Vooruit (1997, Carbon-7). A força que emana deste álbum é desumana. É uma chuva torrencial. I kid you not, não negligencie este pequeno registro ao vivo - é das melhores gravações que já ouvi.

10 de setembro de 2005

Guigou!


Guigou Chenevier tem demonstrado ao longo de sua carreira ser um dos grandes compositores da música de vanguarda e congêneres. Para tanto bastava sua presença à frente do Etron Fou Leloublan, um dos fundadores do R.I.O., e do Volapük, somado às suas aparições em grandes álbuns, como em Speechless, de Fred Frith e Body Parts, onde faz duo com Nick Didkovsky (Doctor Nerve). Não bastasse isso, deve-se levar em conta também sua carreira solo, que não deixa nada a desejar em relação ao seus outros trabalhos. Les Rumeurs de la Ville é seu quarto álbum solo.

A premissa do álbum é uma das mais instigadoras. Guigou gravou, por ocasião de um workshop em Avignon, vários músicos amadores, nos mais variados estágios de técnica e habilidade, que foram estimulados a tocar espontaneamente e segundo seus instintos. Chenevier, então, mesclou estes excertos às suas composições executadas por um septeto profissional (incluindo seus dois colegas de Volapük). O resultado é espetacular: violinos desafinados, trompetes vacilantes e guitarras sôfregas interagem com o virtuosismo do ensemble ao ponto de se tornarem quase indiscerníveis; deixam de ser aberrações para integrarem a obra de maneira visceral.


A tônica do álbum assemelha-se à dos trabalhos do Volapük, mas em uma vertente sóbria, menos agitada. Aqui também encontra-se presente a estreita relação que Chenevier nutre com a música popular, todas as composições, embora eruditas, apresentam sempre um traço folk. Por vezes, as composições enveredam por transições melancólicas, em quase lamentações. Tudo isso coopera para o que parece ser o mote do álbum: captar os rumores, os murmúrios da cidade. Paralelamente, temos a junção do erudito e do popular, do binômio virtuose-amadorismo. Como exemplo, na metade de 'Guerre', não se pode divisar o que é amador e o que não é. Tudo se incorpora em uma massa sonora indistinta, que emparelha todos os músicos, para construir uma interessante peça, no melhor estilo avantgarde. Por vezes, a disparidade é gritante, o que não impede a comunicação entre os instrumentos, com em 'El Zorro', onde Chenevier faz dueto com um trombone terrivelmente mal tocado. Há outras ocasiões onde isto se repete, como em 'J'ai Du Bon Tabac'.

Ao final, tem-se a execução de 'Limelight', composição de Charlie Chaplin para o filme que no Brasil levou o nome de Luzes da Ribalta. Sobre sua presença no álbum posso apenas avançar em especulações, mas a julgar pela temática do filme, talvez tenha sido uma inspiração para Chenevier. O filme é uma magistral reflexão sobre a Arte, sobretudo em sua conexão com a figura do artista. Conexão esta que chega a ser mesmo física; na película, uma bailarina em decadência não consegue mais andar, ainda que fisicamente não haja entrave para tanto, tudo se resume em que o ocaso de sua arte é também o ocaso de seu corpo, e o presságio de sua morte anuncia também a morte de sua arte. Assim, a arte e o artista estão enlaçados de tal maneira que a meta de todo artista é romper esta sina, para que sua arte sobreviva a si próprio. Também a música apresenta estas nuances, e talvez o que Chenevier queira nos mostrar é que se pode também pensar em música independente de um intérprete.
"That's all any of us are: amateurs. We don't live long enough to be
anything else." Calvero (Charlie Chaplin), em Luzes da Ribalta

28 de agosto de 2005

It's good to be back, Lloyd


A Free Music Ensemble (FME) é mais um dos projetos do incansável Ken Vandermark, que de seu QG em Chicago inunda o mundo com dezenas dos melhores trabalhos do free-jazz atual. Vandermark 5, Hoxha, DKV Trio, Territory Band, AALY Trio, são apenas algumas de suas formações. É fácil ficar perdido na avalanche de tantos lançamentos. Underground (Okkadisk, 2003) é uma aposta segura pra quem não quer perder tempo: secundado por Paal Nilssen-Love (bateria) e Nate McBride (baixo), Vandermark propulsiona com seu sax barítono uma torrente de improvisações extremamente penetrantes e iluminadas. Boa parte do valor da obra está na dupla de apoio - agressiva e intensa nos momentos certos - não se limitando a apenas ser o porto seguro para a pirotecnia de Vandermark, mas sendo o contraponto criativo e desafiador para as improvisações do líder.

19 de julho de 2005

Catonapotato

O grupo Volcano the Bear lançou agora em maio de 2005 seu novo álbum, que registra performances ao vivo em Leicester (Inglaterra), Paris, Norrköping (Suécia) e Sheffield (Inglaterra). Se calhar de ser um trabalho tão excêntrico quanto o The Idea of Wood (Textile, 2003), é obra obrigatória para quem aprecie Robert Wyatt, This Heat, Faust, sonoridades free, cacofonia, experimentalismos dadaístas, e que tais.

"VOLCANO THE BEAR - Catonapotato (Digitalis 014) "Volcano the Bear was formed in 1995 with the constant idea of being a group with uncompromising and boundless ideas, and they've always tried to aim for a live environment where they can do whatever they please. This results in a live show that, beyond grandiose sonic qualities, blends the very essence of key words such as surreal, shifting moods, myriad of instruments, humor, beauty and to a certain degree, even self-indulgence. That said, these sonic transgressors are not for everyone. If you're a fan of free-form improvisations, free jazz, weird drones, pagan folk, whimsical acoustic pieces, disjointed percussive riffs, crackling electronics and actually own more than one record by either the Sun City Girls, This Heat, Faust, Residents, The Shadow Ring or Captain Beefheart, then you owe it to yourself to check out these cats."

17 de julho de 2005

Rondó



I can't remember exactly if I met him the first time I saw him with Miles or if I met him when he toured with his own quartet, but I remember meeting him one evening at the Montmartre Club. The big jazz guys would always come down to the club after their own concert because there was always somebody interesting playing there, like maybe Johnny Griffin or Don Byas or someone. I remember a whole bunch of us hanging out and jamming with Coltrane -- come to think of it, maybe it was when Coltrane's quartet was in Copenhagen because I seem to remember Cecil Taylor was at the Montmartre and both groups were in town at the same time in November of 1962. Anyway, Ayler sat-in that night and I remember later hearing that Coltrane commented, after hearing Ayler play, that he had once dreamt that he would someday be playing the same way Albert did. (John Tchicai - entrevista por Mike Trouchon)

Albert [Ayler] we found out quickly, could play his ass off. Some critics said his sound was primitive. Shit, it was before that! It was a big massive sound and wail. The crying, shouting moan of black spirituals and God music. Pharaoh [Sanders] was so beautiful and he had a wildness to him too, a heavy force like the world could be opened, but Albert was mad. His playing was like some primordial frenzy that the world secretly used for energy. (Gennari, John. “Jazz Criticism: Its Development and Ideologies.” in Spiritual Unity and the Resurrection of Albert Ayler.)

(...) Coltrane was greatly influenced by Ayler, even commenting to the younger musician after recording Ascension: “I recorded an album and found that I was playing just like you". (Wilmer, Valerie. "As Serious as Your Life: The Story of the New Jazz". London: Allison & Busby, 1977 in Spiritual Unity and the Resurrection of Albert Ayler.)

Orkestrova - Electric Ascension

Orkestrova - Electric Ascension (Atavistic, 2005)

Bruce Ackley: soprano saxophone
Steve Adams: alto saxophone
Larry Ochs: tenor saxophone
Jon Raskin: baritone saxophone
Chris Brown: electronics
Nels Cline: electric guitar
Fred Frith: electric bass
Ikue Mori: drum machines, sampler
Don Robinson: drums
Otomo Yoshihide: turntables, electronics
Carla Kihlstedt: violin, effects
Jenny Scheinman: violin

Ascension (1965), composta para cinco saxofones (Coltrane, Sanders, Archie Sheep, Brown & Tchicai!), certamente foi uma grande influência para todos os modernos aventureiros do free-jazz. O quarteto de saxofones Rova (Ackley, Adams, Ochs, Raskin) presta sua homenagem a este marco avant-garde lançando sua versão elétrica para o clássico, acompanhada por músicos do quilate de Fred Frith (Henry Cow, Naked City, Massacre), Ikue Mori (DNA, Mephista) e Otomo Yoshihide (Ground Zero).

É pouco mais de uma hora de improvisação coletiva para não colocar defeito - a banda soa particularmente magistral sempre que Nels Cline intervém assomando dissonâncias e ruído à sua guitarra - sempre habilidosamente acompanhado por Frith. As extravagâncias ficam por conta dos artefatos eletrônicos de Mori e Yoshihide, este último responsável por boa parte de ruído que assola o álbum (arranhando seu turntable). Em seus momentos minimalistas (Frith interagindo com os violinos) há ecos do trio londrino AMM, a banda desacelerando para um quase inaudível concerto de cordas. Intercalados entre a recorrências do tema clássico do original de Coltrane, a banda adiciona improvisações absolutamente geniais: o esquizofrênico crescendo ao final do álbum é arrebatador, antecipando o explosivo retorno ao fraseado original.

16 de julho de 2005

Im·promp·tu'


Lá pelo final de Epistrophy, na versão de Eric Dolphy em Last Date (1964), o baterista atravessa um pequenino solo - dura uns 15 segundos - nada muito over the top. Era a primeira vez que Han Bennink se fazia notar em uma gravação de destaque. Desde então o holandês tocou com boa parte da nata do free-jazz, com destaque para sua longa parceria com Peter Brötzmann. E, num octeto tão caótico quanto aquele do seminal Machine Gun (1968), comumente você se pega prestando exclusiva atenção à bateria mirabolante de Bennink, seguindo sua sequência torrencial de tricks and turns. E com Brötzmann, Breuker e Parker aprontando tamanha algazarra, isso não é pouca coisa.

A especialidade de Bennink, no entanto, está na improvisação. É daqueles bateristas que não fica satisfeito atrás do seu drum kit:
I don't need any more enormous drum kit or bells or gongs or whatever sort of shit. I find something here and there behind the stage. Canadian stages are very clean, so there's nothing to find, but yesterday I found some strings, a cardboard box, and a piece of wood. They are more interesting to me sound-wise than many other things because sounds are everywhere and it depends on what context you put them in. When I play on something, it's still playing with two sticks, so I just let the audience hear the difference between how the drum kit sounds or a garbage can, piece of junk, or whatever. That's the idea.

Em Boogie with the Hook (1996), por exemplo, ele toca uma caixa de pizza, num dueto com o igualmente excêntrico Eugene Chadbourne.

Ao vivo, Bennink costuma improvisar usando aparatos criados por ele mesmo para impressionar a platéia - usualmente de maneira cômica - como mecanismos que o permitam tocar à distância, papéis (geralmente pegando fogo), tesouras, altos-falantes, o que estiver à mão. Não é raro que ele desmonte o kit em pleno show, jogue-o ao chão, faça-o girar, etc. Sua inventividade remete ao grande Rahsaan Roland Kirk, que criava instrumentos próprios e era capaz de tocar três saxofones ao mesmo tempo.

Ah, Bennink toca com o pé também.